terça-feira, 21 de julho de 2009

Dia 21 de Julho de 2009


Depois da conversa que tivera ontem na escola de condução pensei que as aulas práticas começariam apenas daqui a algumas semanas. Afinal de contas hoje de manha fui informado que amanhã já poderei começar as aulas em Boticas. Parece-me muito bem. Se começar as aulas agora conseguirei dar um bom numero delas antes de Agosto e da época em que começaram os tratamentos da minha mãe e em que estarei mais ocupado. Devo confessar que já sou totalmente inexperiente na condução (isto não se pode contar J) mas de qualquer das formas estou entusiasmado com o inicio das aulas. Neste momento posso afirmar: bendita a hora em que o meu pai me marcou o exame de código. Esta actividade tem-me mantido bastante ocupado nos últimos tempos e isso é exactamente o que eu preciso.
A minha mãe decidiu finalmente começar a contar aos amigos e pessoas mais chegadas que sofre de cancro da mama. Considero a decisão mais razoável nesta altura visto que esconder já não serve de nada e ela terá de enfrentar os olhares de compaixão, sorrisos amarelos e conselhos repetidos milhares de vezes mas é algo que terá de acontecer e quanto mais cedo melhor.
Na mesma conversa revelou-me que o seu maior medo nos próximos tempos será quando tiver de cortar o cabelo. Afirma que a chocará ainda mais do que cortar o peito. Percebo o seu ponto de vista. De facto, perder o cabelo deixa a nossa morfologia ligeiramente alterada aos olhos dos outros e a minha mãe chegou até a afirmar que “se irá parecer com um óvni daqueles que se via nos filmes antigos”. Pessoalmente abomino um pouco o uso de perucas. Utilizar um lenço pode ser uma opção que cumpre a mesma função e não tenta enganar os outros e conformar o nosso ego ferido em relação à perda que sofremos. E até acho que é bonito ver uma pessoa a usar lenço: serve como um símbolo, uma marca para todos os que o vê como se dissesse “em sofro de cancro; eu sou um sobrevivente; eu estou aqui para lutar contra este monstro e irei derrotá-lo, careca ou não. E porque a minha pessoa não se resume aos pormenores decorativos da minha cabeça, irei ganhar esta guerra mesmo depois do cancro me ter arrancado o cabelo

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Dia 20 de Julho de 2009

A minha rotina normal em tempo escolar sempre me obrigou a horários extremistas. O facto de viver relativamente longe da minha escola faz com que tivesse de me levantar às seis da manhã para chegar a casa bastante tarde (em alguns dias, depois das oito da noite). Após um período de adaptação, consegui habituar-me a estes horários e conviver com eles diariamente sem grandes problemas. Por outro lado, fins-de-semana e férias são tempo sagrado para dormir até bastante tarde para recuperar sono perdido durante todo o ano. Confesso que quando estou de férias sou bastante reticente em relação a qualquer actividade que me faça levantar muito cedo e só não o evito se não puder mesmo fazê-lo… afinal de contas já basta a tortura anual (gosto muito de dormir… quem não gosta?).
Como já tinha revelado a alguns dias atrás, hoje tive o meu exame de código e tive, como tal, de me levantar cedo para me deslocar a chaves. O problema é que na noite anterior, devido à ansiedade momentânea tive um pequeno ataque de insónias que me não deixaram dormir antes das duas da manhã. É fácil imaginar a minha disposição quando me levantei às seis para apanhar o o autocarro. Cansaço extremo e mau-humor q.b… e eu que até costumo ter um acordar bastante humorado.
O importante é que apesar de estar muito cansado (e também nervoso) consegui passar no meu exame de código com uma resposta errada. É um peso enorme que me é retirado de cima porque o código, sejamos sinceros, é uma verdadeira praga que nos persegue durante longos meses até que possamos finalmente ver-nos livre dele. Agora que esta fase está terminada, venha a condução que espero que coloque menos pressão em cima dos alunos. Gostaria de as iniciar o mais rápido possível para dar um bom número antes de Agosto. Afinal de contas, depois dessa data a minha mãe começará com as suas viagens e ausências constantes e será mais complicado ter aulas diariamente.
A minha mãe foi mais um vez ao Porto com os meus tios. Hoje fio realizar um exame aos pulmões que segundo ela não durou mais de quinze minutos. Isto pode parecer bom para quem o realiza, mas para quem teve de fazer uma viagem de mais de duas horas para chegar ao IPO, inverter a marcha após quinze minutos é um pouco frustrante. E o pior é que sexta-feira terá de lá voltar e desta vez para realizar três exames diferentes. Talvez tivesse sido mais prático dividir os exames pelos dois dias, mas os especialistas é que sabem e não devemos contestar as suas decisões.
De qualquer das formas hoje sinto-me muito bem: a sensação de dever cumprido é óptima e arrumar o código de uma vez deixa-me realmente muito aliviado.

Dia 19 de Julho de 2009

Antes de mais peço desculpa por não ter publicado este post ontem, como é habitual, mas tive um dia extremamente agitado que se prolongou madrugada dentro o que me impossibilitou totalmente de cá vir escrever.

Mas como vale mais tarde do que nunca, vamos lá contar o que ocupou tanto tempo.

Sou do signo gémeos. Uma análise superficial sobre este signo terá invariavelmente uma definição que garante que todos nós, os gémeos, somos muito indecisos em relação aos nossos gostos e nos interessamos por várias coisas ao mesmo tempo. Pois eu sigo exactamente essa característica. Tenho imensos interesses e tento segui-los a todos de forma constante. Além daqueles que já revelo aqui (leitura, escrita, musica e séries televisivas) apresento hoje mais uma: culinária. É verdade, eu adoro cozinhar e diz quem prova os meus pratos que eu nem me safo mal (quanto a isto não me pronuncio, fica mal avaliar-me a mim próprio). Ora sendo assim, ontem decidi dar largas ao meu gosto e cozinhar para toda a família. Como não somos propriamente poucos, tive de começar a trabalhar a meio da tarde e fui o último a sentar-me à mesa. Felizmente toda a gente adorou e pediu mais (mas isso já não será tão certo: cozinhar para tanta gente dá imenso trabalho) e mais uma vez consegui distrair toda a gente dos nossos problemas que é sempre o meu principal objectivo.

Claro está que depois do jantar se seguiu a longa conversa acompanhada de chá e café pelo quando toda a gente saiu já passava das duas horas da manhã. Ainda poderia ter vindo escrever não fosse o facto de ter exame de código no dia seguinte (ou seja hoje) que me obrigou a fazer mais alguns testes de preparação antes de dormir.

A minha mãe também tinha consulta marcada para hoje no porto e desta vez não pude acompanhá-la. Quanto ao meu exame de código vou ser mauzinho e só contar hoje há noite, no post habitual a contar como se passou o dia J

sábado, 18 de julho de 2009

Dia 18 de Julho de 2009

Desde que me lembro, sempre fui extremamente céptico em relação a certos temas que ultrapassam a minha capacidade de aceitação. Já em criança me costumava questionar sobre certos assuntos que ouvia entre as conversas da minha família e o crescimento apenas aprofundou em mim alguma aversão a certos temas míticos como bruxarias, feitiçaria, videntes e afins. Para ser sincero, também não sou um fanático religioso (facto que muito choca alguns membros da minha família) e apesar de ter a minha crença e religião bem definida, ignoro alguns dos rituais próprios dos cristãos porque acho a maior parte deles um tanto ou quanto ridículos. Poucas vezes digo isto em público porque sei que a maior parte das pessoas tem grande dificuldade em aceitar ideias diferentes das suas e afirma em frente de certos indivíduos (dou exemplo, a minha avó) que ir à missa todos os domingos não prova a nossa devoção e chega a ser perda de tempo pode chocá-los e levá-los a olhar-nos de forma desconfiada.
Toda esta introdução sobre as minhas crenças e aversões ao misticismo pode parecer estranha mas tem uma explicação. Hoje o meu tio (esse sim, um fanático religioso e muito crente em todo o tipo de magias do oculto) contou-me que visitou uma espécie de vidente para o inquirir sobre os problemas da minha mãe. Segundo ele, foi necessário dizer o seu nome para que o homem inicia-se uma clara descrição sobre a minha mãe, incluindo os problemas que está enfrentar e desvendar um pouco da sorte que nos espera. Ora, afirmou o vidente que sabia perfeitamente que ela tem um problema no peito mas que ainda foi detectado a tempo e que tudo será resolvido com sucesso. Depois referiu também o problema do ombro e explicou que este já foi detectado numa fase mais tardia e que também terá de ser operado, mas que no fim tudo será resolvido. Claro está que o meu tio ficou radiante ao ouvir isto e a minha mãe também, apesar de não o expressar (é certo que errou a predisposição para acreditar nas forças sobre-humanas das gerações anteriores). Quanto a mim, cada vez que me deparo com uma situação destas fico sempre muito desconfiado. Não gosto de ser demasiado rígido com tudo o que me rodeia e afirmar que é mentira que é impossível existirem videntes. Por outro lado, de cada vez que por meros momentos me deixo convencer que estas situações são reais, o meu instinto abana-me de imediato e provoca em mim o sentimento de rejeição perante algo que não tem explicação científica.
A questão é: como iria o senhor (para não lhe chamar vidente) saber todos os problemas da minha mãe sem que o meu tio tivesse revelado qualquer informação? Leitura de pensamentos? Hipnose? Tem mesmos poderes especiais e consegue prever o futuro? Questões que nunca verei respondidas mas que nesta situação até podem ter tido algumas consequências benéficas para a minha mãe que ficou feliz, oi mínimo que seja, por alguém ter afirmado com convicção que se iria salvar.
Também gostaria de saber a opinião das seguidoras do meu blog sobre este assunto. São completamente contra a ideia da existência de pessoas “diferentes” que sabem mais que os comuns mortais ou acreditam piamente em videntes, curandeiros e todo o tipo de de pessoas com artes ocultas. Expressem-se.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Dia 17 de Julho de 2009

Como previsto fomos a Vila Real para que a minha mãe pudesse realizar a ressonância magnética. Como a funcionária do hospital explicou que ainda teria de esperar um pouco para ser atendida decidi ir com a minhas primas ao centro comercial, ao cinema. Já nem me lembro da última vez que tinha ido ao cinema. E soube tão bem ter a mente centrada no grande ecrã, sem pensar em mais nada durante duas horas e meia… Fomos ver o Harry Potter que estreou ontem. Deu para distrair a cabeça.
Quando saímos a minha mãe contou-me que a ressonância magnética teve uma realização um pouco chata, e entendo que ficar maia hora deitada dentro de um “túnel”, sem se poder mexer e ouvindo zumbidos estranhos em torno da nossa cabeça deve ser extremamente irritante. Eu pessoalmente costumo ficar com agradáveis comichões por todo o corpo quando é imprescindível ficar quieto, logo espero não ter de vir a realizar este tipo de exames tão cedo.
De qualquer das formas o médico diz que deverá demorar cerca de uma semana e enviar os resultados para chaves. Espero que finalmente se despiste a origem das dores no ombro e que não seja um problema ainda mais grave do que aquele que já estamos a enfrentar.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Dia 16 de Julho de 2009

Hoje candidatei-me à Universidade. Utilizando o sistema online, a meu ver muito útil e prático (evitam-se longas horas em filas de espera e pode-se trabalhar no conforto de casa) lá coloquei as seis opções universitárias e que me proponho. EM primeiro Vila Real seguida do Porto. As restantes quatro opções foram escolhidas de forma a dar segurança à candidatura porque só em caso de azar extremo não consigo entrar numa das duas primeiras opções. Agora é esperar até Setembro para saber os resultados. Por enquanto não estou preocupado, quando se aproximar o dia ficarei certamente mais ansioso.

Hoje foi mais uma tarde dedicada ao estudo com a minha irmã e com a minha prima. Depois de ter dado uma arrumação à casa ( com a nossa ausência ontem e tendo-me descuidado um pouco nos dias anteriores a casa ficou tão desarrumada como nunca a vira) lá acabei por lhes dar algumas explicações onde tinham mais dificuldades (regra geral a matemática). Há noite a minha outra prima veio cá a casa e vimos um filme juntos como também é nosso hábito durante as férias.

O dia foi bastante normal. A minha mãe falou com um tia minha (por parte do meu pai) que só agora soube do problema mas além disso não se falou do cancro durante o resto do dia (nem é necessário estar sempre a referir assunto tão improfícuo). Amanhã vamos a Vila Real para que ela realize e ressonância magnética para que talvez se descubra de uma vez por todas qual a origem deste problema que temos deixado esquecer mas que poderá também vir a mostrar-se grave.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Dia 15 de Julho de 2009

O dia 15 de Julho estava agendado há muito na minha mente como um dia diferente. Sabia desde que marcaram a primeira consulta no IPO que seria o dia que iria confirmar todas as nossas suspeitas e pôr-nos definitivamente frente a frente com o cancro.

O dia foi bastante rico em novidades em relação ao cancro da mama, apesar de nenhuma delas ser animadora ou feliz. Mas também nenhuma delas foi chocante. Simplesmente foram a confirmação de tudo aquilo que já esperávamos: a minha mãe te facto cancro na mama.

A médica analisou-a, viu a nomografia e a ecografia mamárias e confirmou que de facto existe um tumor no peito direito. A partir deste momento começou o planeamento para tudo o que virá a seguir. Fez uma biopsia de imediato com a mesma médica, o que fez com que tivéssemos de esperar várias horas para que pudesse ser atendida. Para a semana tem marcados mais dois exames entre análises e exames aos ossos (para perceber se o problema do ombro está ou não relacionado com o cancro, facto que também deverá ser confirmado pela ressonância na sexta-feira). A longo prazo chegaram as notícias relacionadas com o tratamento: tal como previra, terá de fazer quimioterapia antes de ser operada para diminuir o tamanho do tumor e a médica deixou antever que terá de cortar o peito. A consulta de grupo em que se saberá a benignidade do tumor está marcada para dia 7 de Agosto e a única coisa em que tento acreditar agora é que por um qualquer milagre o tumor seja benigno. Acima de tudo é importante perceber que tudo o que soubemos só não nos chocou mais porque era algo totalmente esperado e a confirmação dói menos do que a informação não esperada. Já me tinha informado sobre estas situações e também lhe tinha explicado pelo que o choque foi menor desta forma.

Estar no IPO foi uma experiencia diferente. Nunca lá tinha entrado e fiquei sensibilizado com a quantidade de mulheres que vi na mesma situação que a minha mãe, diferenciando-se apenas no avanço do tratamento a que estavam submetidas. Tantas vidas diferentes, tantas situações opostas que no fim se encontram naquele local para um fim comum: enfrentar o cancro que se hospedou no seu corpo sem permissão. De certa forma ver tanta gente na mesma situação que nós dá-nos algum alento. Não nos sentimos tão sozinhos e percebemos que há muitos outros na mesma situação que nós e que se todos eles conseguiram aguentar até este estado, se muitos outros conseguiram curar-se, a minha mãe não será excepção.

Não posso deixar de referir o gesto das duas senhoras que nos foram visitar hoje ao hospital (peço imensa desculpa por não me lembrar dos nomes. Quero apenas que saibam que as caras ficaram gravadas no coração e de cá não saíram tão cedo). Um gesto tão digno, tão humano que só poderia ter origem em alguém que já passou pelo mesmo que a minha mãe. A minha mãe ficou emocionada e ao mesmo tempo chocadíssima (no bom sentido) com a história do Blog mas decidiu que prefere lê-lo daqui a algum tempo, quando tudo acalmar para poder ler tudo em retrospectiva. Gostou muito da visita, apesar de no momento a emoção não a ter deixado expressar bem. Eu agradeço pelos dois um gesto que me marcou muito e do qual não esperava (daí também alguma surpresa da minha parte) mas que só demonstra a a boa vontade de ambas.

Depois de sairmos do porto fomos passear um pouco perto do castelo de queixo para espairecer. Fomos também ver o local do novo oceanário que pretendo ir visitar com a minha mãe ainda antes de iniciar o tratamento. A viagem de regresso além de cansativa foi silenciosa. Não sei no que cada um de nós pensou, mas imagino… vagamente…

E pronto assim se iniciou a guerra. O cancro ganhou a primeira batalha: entrou nas nossas vidas e conseguiu destabilizadas. O que ele não sabe é que o exercito oposto ainda nem sequer começou a batalhar a sério, porque quando isso acontecer, não há células tumorais que resistam à força de uma família unida para um único propósito, acabar com elas. E vamos ganhar esta guerra, percamos as batalhas que percamos, no fim a saúde sairá vitoriosa e apesar de todas as baixas que possamos sofrer, sai que daqui a uma poderei estar neste blog a mudar o seu título para “A minha mãe TEVE cancro na mama”.