O dia 15 de Julho estava agendado há muito na minha mente como um dia diferente. Sabia desde que marcaram a primeira consulta no IPO que seria o dia que iria confirmar todas as nossas suspeitas e pôr-nos definitivamente frente a frente com o cancro.
O dia foi bastante rico em novidades em relação ao cancro da mama, apesar de nenhuma delas ser animadora ou feliz. Mas também nenhuma delas foi chocante. Simplesmente foram a confirmação de tudo aquilo que já esperávamos: a minha mãe te facto cancro na mama.
A médica analisou-a, viu a nomografia e a ecografia mamárias e confirmou que de facto existe um tumor no peito direito. A partir deste momento começou o planeamento para tudo o que virá a seguir. Fez uma biopsia de imediato com a mesma médica, o que fez com que tivéssemos de esperar várias horas para que pudesse ser atendida. Para a semana tem marcados mais dois exames entre análises e exames aos ossos (para perceber se o problema do ombro está ou não relacionado com o cancro, facto que também deverá ser confirmado pela ressonância na sexta-feira). A longo prazo chegaram as notícias relacionadas com o tratamento: tal como previra, terá de fazer quimioterapia antes de ser operada para diminuir o tamanho do tumor e a médica deixou antever que terá de cortar o peito. A consulta de grupo em que se saberá a benignidade do tumor está marcada para dia 7 de Agosto e a única coisa em que tento acreditar agora é que por um qualquer milagre o tumor seja benigno. Acima de tudo é importante perceber que tudo o que soubemos só não nos chocou mais porque era algo totalmente esperado e a confirmação dói menos do que a informação não esperada. Já me tinha informado sobre estas situações e também lhe tinha explicado pelo que o choque foi menor desta forma.
Estar no IPO foi uma experiencia diferente. Nunca lá tinha entrado e fiquei sensibilizado com a quantidade de mulheres que vi na mesma situação que a minha mãe, diferenciando-se apenas no avanço do tratamento a que estavam submetidas. Tantas vidas diferentes, tantas situações opostas que no fim se encontram naquele local para um fim comum: enfrentar o cancro que se hospedou no seu corpo sem permissão. De certa forma ver tanta gente na mesma situação que nós dá-nos algum alento. Não nos sentimos tão sozinhos e percebemos que há muitos outros na mesma situação que nós e que se todos eles conseguiram aguentar até este estado, se muitos outros conseguiram curar-se, a minha mãe não será excepção.
Não posso deixar de referir o gesto das duas senhoras que nos foram visitar hoje ao hospital (peço imensa desculpa por não me lembrar dos nomes. Quero apenas que saibam que as caras ficaram gravadas no coração e de cá não saíram tão cedo). Um gesto tão digno, tão humano que só poderia ter origem em alguém que já passou pelo mesmo que a minha mãe. A minha mãe ficou emocionada e ao mesmo tempo chocadíssima (no bom sentido) com a história do Blog mas decidiu que prefere lê-lo daqui a algum tempo, quando tudo acalmar para poder ler tudo em retrospectiva. Gostou muito da visita, apesar de no momento a emoção não a ter deixado expressar bem. Eu agradeço pelos dois um gesto que me marcou muito e do qual não esperava (daí também alguma surpresa da minha parte) mas que só demonstra a a boa vontade de ambas.
Depois de sairmos do porto fomos passear um pouco perto do castelo de queixo para espairecer. Fomos também ver o local do novo oceanário que pretendo ir visitar com a minha mãe ainda antes de iniciar o tratamento. A viagem de regresso além de cansativa foi silenciosa. Não sei no que cada um de nós pensou, mas imagino… vagamente…
E pronto assim se iniciou a guerra. O cancro ganhou a primeira batalha: entrou nas nossas vidas e conseguiu destabilizadas. O que ele não sabe é que o exercito oposto ainda nem sequer começou a batalhar a sério, porque quando isso acontecer, não há células tumorais que resistam à força de uma família unida para um único propósito, acabar com elas. E vamos ganhar esta guerra, percamos as batalhas que percamos, no fim a saúde sairá vitoriosa e apesar de todas as baixas que possamos sofrer, sai que daqui a uma poderei estar neste blog a mudar o seu título para “A minha mãe TEVE cancro na mama”.